16 de Maio de 1964
Que foto!
Parte da turma da minha Rua em Juiz de
Fora!
Me lembro de quase todos.
Nesta foto um detalhe que acho
maravilhoso e marcante daquela época:
O “jornaleiro” com os jornais debaixo do
braço. Ele tambem era da turma.
Agora me bateu uma curiosidade:
- Qual foi manchete do dia?
O
que aconteceu no dia anterior? Naquele mês?
Ah! O que aconteceu naquele ano eu sei, nós
sabemos: Foi o golpe militar! A cidade devia estar fervilhando de noticias afinal tínhamos
militares na rua.
Tenho algumas recordações do dia do
golpe em Juiz de Fora. Eu estava indo visitar uma vizinha, amiga de minha mãe
quando esbarrei com um militar de alta patente subindo as escadas esbaforido...
Ainda me lembro do cheiro da farda que senti quando ele passou do meu lado.
A
amiga da minha mãe me despachou na hora, pois o tal militar também se dirigia a
casa dela. Posteriormente fiquei sabendo que ele havia estado na casa dela
alguns meses antes do golpe. Na ocasião ela havia dito qualquer coisa sobre
esse momento que o Brasil iria passar. No dia que esbarrei nele na escada ele
teria ido “pedir satisfações”:
- Como você sabia que isso ia
acontecer?
Acredito que ela deve ter dado uma aula
para ele sobre astrologia para explicar sua “premonição” e ficar livre de ir à
delegacia prestar depoimento.
Alguns anos depois, final de 68 começo
de 69 nos mudamos para BH. Esperávamos anos mais tranquilos, mas da minha
sacada cheguei a presenciar os filhos de um nosso vizinho e seus amigos pulando janelas, saindo pelo telhado, correndo ladeira abaixo e tentando se
esconder no mato perto da casa para fugirem dos soldados que chegaram em dois
camburões... Eram do DOPS
Pelo que sei nada aconteceu, pois havia
um “promotor” que morava ao lado e também viu toda a situação. Não sei detalhes,
mas todos ficaram bem. Eu ainda era menina...
Na foto eu sou aquela à direita com o “cabelo
vermelho” de saia plissada e sapatilha de bico fino com meias. Alguns me
chamavam de “cabelo de fogo”, outros de “ruivinha”. Outros ainda me chamavam de
nomes que hoje seria considerado “bullyng”. Eu Sofria... Eles não estavam
acostumados a conviver com um ser branco como o leite e cheio de sardas
(ferrugem) como eu. Eramos tidos como estrangeiros. Meu pai era italiano e
tinha um forte sotaque. Minha mãe é de Santa Catarina. Para piorar a situação, na
medida em que crescia eu ficava mais magra e quando perdi os dois dentes de
leite, os da frente... Foi uma calamidade. Eles custaram a nascer. Que dificuldade!
Quantas lembranças!
As brincadeiras de rua, os amigos, os “inimigos”...
Os vizinhos, a cidade com seus antigos e
lindos casarões que sempre me fascinaram.
As visitas ao “Museu Mariano Procópio”
me marcaram profundamente. Foi lá que eu vi pela primeira vez o famoso quadro
de “Pedro Américo”: Tiradentes Esquartejado.
Como detestava vê-lo. Cheguei a fechar
os olhos para não ver. Me dava medo,
pena, uma sensação de injustiça. Como faziam isso com alguém? Nunca gostei. Até
hoje não gosto...
Uma doce memória é a dos frascos de
perfume francês da D. Lecy que eu tanto amava. Amava os frascos e a D. Lecy.
Ela dispunha os frascos em frente à penteadeira num jogo geométrico de tamanho
e forma que se duplicavam no espelho ao fundo. Eu pensava: quando “crescer” terei um igual. Ao longo da vida ganhei e comprei uma
variedade enorme de perfumes. Franceses, nacionais, americanos, italianos, árabes,
mas, em nenhum deles até hoje, achei o aroma daquele momento em frente à
penteadeira da D. Lecy. Continuo procurando...
Na foto, logo atrás do “jornaleiro” está
o pequeno portão bege e preto. Até ele
me traz memorias. Eu encaixava meus pés entre as grades e ficava me balançando.
Certo dia enquanto eu me balançava no portão um menino “gordinho” se aproximou.
Na verdade ele não era gordinho. Era saudável... Eu que era muito magra e
acabava achando que os outros eram todos gordinhos. Esse menino conversou
comigo com tanto carinho, gentileza e educação que eu me encantei por ele.
Nunca mais o vi! Pode ter sido a minha primeira paixão. Não sei seu nome, nunca
soube. Só me disse que estava visitando seus parentes que moravam ali pertinho,
virando a esquina em uma casa na Avenida dos Andradas. Foi um encontro de uns
15 minutos.
Anos depois, eu já adulta em BH comecei
a namorar um rapaz. Conversa vai... Conversa vem e acabei me casando com ele.
Eu continuei com minha curiosidade sobre historias de família e um dia ele
contando historias da família dele me disse que tinha tios e primos que moravam
em Juiz de Fora. Um desses tios morou numa casa na Avenida dos Andradas há
poucos metros do prédio onde ficava esse portão e ele foi visita los algumas
poucas vezes...
Seria ele o menino do portão?
Não sei!
Ele não se lembra de uma menina ruiva
balançando no portão, mas, depois disso sempre que penso no menino do portão
desconfio que pode ter sido ele. O tipo físico, a cor dos cabelos, os olhos...
Pode ser... Tipo assim um encontro “premonitório”.
Quantas recordações uma foto nos dá.
Nesta rua existiam algumas “turmas”.
Esta foto é a turma dos mais novos. Existiam outras turmas... Existiam mais
crianças, mais amigos.
Me lembro da “Regina” e suas irmãs. Na
época ela devia ser uma moça dos seus 17 anos. Foi ela que me socorreu quando
eu de velocípede fugi do “homem do saco” que ia me pegar e na fuga acelerada
descendo a rampa, acabei atropelando a escada do meu prédio. Tenho a cicatriz
em “X” ao lado do olho até hoje.
Foi sangue para todo lado. Ela passava
no local na hora. Ia trabalhar ou ia para um encontro? Não sei. Só sei que seu
vestido era branco e me pegou no colo. Lembro de minha mãe dizendo que ela
tinha se sujado. Depois disso só me
lembro de estar deitada em uma maca no “Pronto Socorro de olhos fechados para
não ver a seringa da anestesia”. Os olhos permaneceram fechados por um longo
tempo até que eu abri um dos olhos e vi o “médico mais lindo da vida” e pensei:
- Que sorte eu tenho! Vou contar para
todo mundo que fui atendida por esse médico lindo. Esse acidente não foi de todo ruim... Não
fechei mais os olhos.
Estar machucada não era novidade. Neste
dia alguém falou para mim:
- Dóris, você conseguiu fazer uma trinca
de galos e machucados na sua testa... Eram três machucados entre “galos” e
cortes só na região dos olhos.
Eu subia em tudo, me dependurava nas
janelas, percorria as pequenas marquises dos apartamentos me apertando junto às
paredes, escalava muros.
Me aventurava no terreno baldio em
frente achando que estava numa floresta perigosa. Ok! De vez em quando achávamos
umas cobras por lá...
Brigava de dar socos, unhadas etc...
Não, eu não era de brincadeira... eu era
“fogo”. Como os meus cabelos.
Minha irmã, minha prima engoliram seus
dentes de leite após um soco que dei...
Minha prima-irmã, Ena, sempre dizia: Deus
me livre de ter uma filha levada como você. Ela uma vez me salvou de uma queda
da janela do segundo andar. Eu me fazendo de pendulo... Ela quase teve um
desmaio quando me viu.
Minha professora (Dinah?) no “Educandário
Santa Rita de Cássia” dizia que eu devia ter rodas nos pés.
Para eu aprender a “tabuada” de uma vez
por todas, a filha da Diretora, Julia, me colocou de castigo após o horário normal
que acabava às 17 horas. Eu no andar de baixo ficava gritando a tabuada para
ela que queria ouvir no andar de cima...
- 2 x 1 = 2
- 2 x 2 = 4
- 2 x 3 = 6
- 2 x 4 = 8
E a noite ia chegando... Eu só podia
sair na hora que soubesse de cor a tabuada do dia. A cada dia tinha de repetir
a do dia anterior...
Foram 8 dias...
Até hoje sou excelente em tabuada. Sei de
cor e salteado.
Também gostava de me sentar na varanda
da casa ao lado do prédio onde morava e ficar um bom tempo conversando com o “Seu
Zé”. Ficavamos sentados nas cadeiras de ferro, pintado de branco, vendo o movimento
da rua. Ele era um fazendeiro que não tinha o costume de conversar com “crianças”,
mas me recebia de forma carinhosa e conversávamos. Contava casos do sitio, da
cidade... Nem sei o que tanto conversava. Me lembro de suas filhas entrando e
saindo e de ver na janela do quarto, a cabeça de um de seus filhos que ficava mergulhado
nos livros estudando para o vestibular. Que fim levaram?
Qual era o nome do seu Zé? Sua esposa...
Não me lembro. Gostaria de saber mais sobre ele. Só me lembro de suas botinas,
sua cabeça branca e seu sorriso.
Tenho muitas recordações de Juiz de Fora!
As brincadeiras em frente ao prédio com as
amigas, a brincadeira de “pera, uva, salada mista” e mais... Mais... Muitas
mais.
Me lembro do muro da Igreja Batista que
ficava na nossa rua e dele estar sempre melado com “piche” para que ninguém
sentasse nele...
Me lembro que num Natal meus pais
armaram uma imensa arvore na nossa sala. Encheram na de algodão para simular a
neve... Colocaram pequenos anjos de plástico que seguravam velinhas que devíamos
acender na hora de cantar “Noite Feliz”. Na Noite de Natal, enquanto cantávamos,
o fogo de uma vela esbarrou num fiapo do algodão. As labaredas foram
imediatas... Lamberam o teto do apartamento... Minha mãe correu para pegar um
pano molhado para apagar o fogo enquanto meu pai dizia:
- Deixa queimar!
Os
anjos murchavam, seus braços ficavam fracos e deixavam cair mais uma vela no
algodão.
Derretiam, pingavam, retorciam. As bolas coloridas de vidro estalavam e o teto
ficava negro...
E meu pai continuava a dizer: Deixa
queimar!
No dia seguinte minha mãe colocou o que
sobrou da arvore no lixo. Sobrou somente uma espécie de arvore feita de arame
retorcido e enegrecido. Alguns rapazes
da rua, brincalhões e amantes da farra recolheram o que sobrou da arvore e saíram
com ela pela rua em caminhata, gritando:
- Olha a arvore da D. Miriam! Olha a
arvore da D. Miriam.
Um belo dia meu pai nos avisou que
iriamos nos mudar para BH. Para nos alegrar disse que iriamos para um
apartamento muito maior, mais confortável...
Foi uma tristeza danada em casa e na
rua...
Os amigos ficaram indignados que íamos nos
mudar. Mais revoltados ainda que iamos para BH. Naquele tempo havia uma rixa
danada entre Juiz de Fora e Belo Horizonte. Os Belorizontinos chamavam o
pessoal de Juiz de Fora de “cariocas do brejo” enquanto os Juizdeforanos
chamavam os Belorizontinos de “Capiau”.
Me lembro que me despedi de cada pedaço
daquela rua. A partir do momento que soube que íamos nos mudar eu olhava para
cada pessoa, para cada lugar com olhos de saudades...
No dia da mudança eu fiquei na janela
observando o caminhão de mudanças ser carregado... Os amigos que passavam
inconformados e diziam:
- Não vão não... Não vão não...
Eu... Chorava.
Não vi por dezenas de anos muitas
daquelas pessoas queridas. Outros nunca mais vi: Lindinha... Onde esta você? Algumas poucas foram nos visitar em Belo
Horizonte. A minha grande amiga da época, a Glaucia eu não vi mais... Só a revi
depois de 40 anos, há poucos anos atrás morando na mesma cidade paulista que
eu. Nossas bonecas “Susi´s” que vestíamos sentadas na escada não existiam
mais... Ficaram na lembrança. Doces lembranças.
Eu tenho muitas... Mas muitas recordações
daquele tempo. Muitas coisas também esqueci, mas posso dizer que valeu a pena
ter nascido em Juiz de Fora... Ser mineira... Carioca do Brejo.
Eu agradeço muito ao Augusto (Guto) esse
menino a esquerda que veste um shorts branco. Foi ele que há alguns anos me
achou no facebook e enviou esta foto que me trouxe muitas recordações de Juiz
de Fora da minha infância.
(1)
que também ficava
pertinho, virando a esquina e descendo alguns metros a Avenida dos Andradas.
(Anos depois relendo este texto devo fazer uma reitificação. Na parte que conto como me machuquei e fui parar no Pronto Socorro e ver o "medico lindo", não foi a Regina quem me socorreu. Na verdade foi sua irma... Eram 3 irmas. Regina, Nasaré e Lalá (Celia Maria). Regina faleceu a poucos anos mas se não me engano, foi Celia quem me socorreu. Ela me contou na epoca que fiz esta postagem. Lembro de ter conversado sobre isso com ela e ele me corrigiu. Pena que não encontro nossa conversa daquele dia...