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domingo, 17 de maio de 2026

OS QUATRO IRMÃOS ZAMBONI



Uma foto!

Quatro homens! Quatro irmãos! Tios de meu pai.

Imigraram para os EUA da América no inicio do século XX.

Esta foto sempre esteve no nosso álbum de família juntamente com outras que me intrigavam.

Quem eram eles? Onde estariam? Se eram da família porque não tínhamos contato com eles?

Quando meu pai nasceu eles já moravam na América. Eram os tios que imigraram para os EUA. Ele chegou a brincar com a prima, filha de um deles: Palmira, mas isto foi logo depois da segunda guerra da qual ele participou na turma da "marmelada".
Depois não teve mais noticias e ele também acabou entrando na longa lista de imigrantes; para o Brasil.

Anos se passaram. Meu pai morreu em 1994 sem nunca ter alguma noticia deles.

Em busca da minha historia e da historia de meus "nonos" eu acabei encontrando alguns nomes em comum nos EUA.
Mandei um email com algumas fotos e em anexo um breve relato.

Recebi logo em seguida uma resposta que me deixou eufórica:

“Estou muito feliz por ler sua mensagem. Eu reconheci a foto dos quatro irmãos incluída em sua mensagem. Meu avô é um dos que está na foto. Eu adoraria trocar informações sobre nossa família!
O mais velho dos irmãos é Pedro (Uncle Pete) que tinha um rancho na Califórnia. Todos os irmãos trabalharam para ele assim que chegaram à América.  Todos acabaram tendo seu próprio negocio, mas estavam sempre em contato.  Tio Pedro casou se com Giuletta, nascida tambem na Itália... Tiveram 12 filhos.
Uncle Bob (Giovanni) nunca se casou...              . 
Tio Attilio casou se com a sobrinha de Giulietta...
Meu pai Eugenio...
Temos muitas informações para trocar, muito para descobrir!
Estou tão feliz de encontrar mais primos no Brasil!”
Shirley

Minha "nova prima"  trouxe um mundo de novas informações: Eles ressurgissem das cinzas, das brumas do passado.

Forneceu-me certidões que eu nunca havia visto, inclusive de minha avó. Segundo ela todas guardadas pelo “Uncle Pete” que  devia ter a mesma “fixação” em guardar a memoria da família.

Por fim, ri de mim mesma, pois todo o tempo eu procurara pelo "Zio Pedro", "Zio Giovanni", "Zio Eugenio" e não me dera conta que eles haviam se transformado em "Uncle Pete", Uncle Bob, Uncle Jimmy... 

Shirley tambem me informou sobre o nosso parentesco com o famoso inventor das maquinas de limpar gelo na Italia : As Zambonis.  Contou me que um desses meus tios avôs, trabalhou com Frank  enquanto ele desenvolvia a maquina.
Descobri tambem que o mais novo deles, Attilio, só veio a falecer alguns anos depois de meu pai e, pensei que poderiam ter se encontrado e imaginei o que falarriam... O que compartilhariam sobre a diferença da imigraçao entre os EUA e o Brasil.

Meu pai lutou na guerra. Pertenceu ao exercito e tambem foi partizan. Depois trabalhou nas minas de carvão da Belgica e decidiu vir para o Brasil.

Eu fui descobrindo mais informações dos Zambonis dos EUA. 

Eles nasceram na pequena cidade do Norte da Itália : Colorina - Sondrio

Na cidade, ainda hoje existe um velho moinho comandado por um descendente de Erminio Zamboni, tio de minha avó. (http://www.ilgiorno.it/sondrio/cronaca/2012/01/09/649302-mulino_colorina_macina_sempre.shtml)

Junto com o email de Shirley, veio uma nova foto com quatro homens: Agora uma foto colorida!

Eram homens mais velhos posando de forma alegre e descontraida. 

Na verdade a nova foto era o epilogo feliz daquela primeira: os quatro irmãos, sorridentes, tranquilos, com expressão de dever cumprido... Quase a nos dizer: 



Viu?   Conseguimos! Fizemos a América !







Shirley tambem me informou sobre o nosso parentesco com o famoso inventor das maquinas de limpar gele na Italia : As Zambonis.  Contou me que um desses meus tios avôs, trabalhou com Frank  enquanto ele desenvolvia a maquina.

Fui descobrindo mais informações dos Zambonis...

Eles nasceram na pequena cidade do Norte da Itália : Colorina - Sondrio

Na cidade, ainda hoje existe um velho moinho comandado por um descendente de Erminio Zamboni, tio de minha avó.

http://www.ilgiorno.it/sondrio/cronaca/2012/01/09/649302-mulino_colorina_macina_sempre.shtml
















sábado, 4 de dezembro de 2021

Fra Benedetto - Honorato Fiamoncini

Nona Carolina que contava. 
Ela teve um irmão que tinha o desejo de se tornar padre. 
Ele foi se preparar na Bahia junto com os Franciscanos.
Ela contava que a mãe dela, Nona Vitoria,  tinha o habito de se levantar bem cedinho como todos descendentes de imigrantes e numa manhã ela estava fazendo o café quando enxergou pela janela o filho se equilibrando na cerca. Ela levou um susto e dizem que ficou muito preocupada pois achou que era o filho dando algum aviso. 
De fato, poucos dias depois chegou a carta trasncrita abaixo.

PROVINCIALADO DOS PADRES FRANCISCANOS

BAHIA – BRASIL

 Bahia, 21 abril 1919

 Paz benção e consolação em Nosso Senhor Jesus Cristo.

Como já sabeis por um telegrama, aprouve a Deus chamar para o céu sem ninguém esperar o vosso santo filho, nosso mui amado Frei Benedicto. Chorei e como uma criança que perde a mãe porque não quis por na (?) perder o meu Frei Benedicto. Fizemos promessas sobre promessas, fomos de altar em altar para pedir de braços abertos a Deus que no lo conservasse, mas Deus achou melhor chama lo a si, frei Benedicto conformou se com a vontade divina com uma tranquilidade de espirito que todos admiramos. Tendo feito o seu retiro espiritual, Frei Benedicto recebeu no dia 5 deste mês a sagrada ordem de Diácono. Foi um dia de alegria em casa. Eu me achava fora do convento pregando numa pequena missão. Quando voltei dia 6 Frei Benedicto apresentou se radiante de alegria, agradecendo-me a caridade de o ter apresentado ao Exmo. Sr Arcebispo D. J      para a adoração.

Respondi lhe que agradecesse a Deus a dita de já pertencer aos números dos diáconos da Igreja, com Santo Estevão, São Lourenço, S. Eufrásio (Efraim?), e São Francisco. Ele sorriu e pediu a benção. Como Diácono deu... A Santa Comunhão para levar uma... há um doente. Na quarta feira dia 9 de abril começou a sentir se incomodado.

No dia seguinte manifestou se com uma febre que o vitimou com dor e espanto de todos que o conheciam e já amavam aqui. O irmão enfermeiro, os superiores os irmãos (?) tudo tentaram tudo fizeram para conservar lhe a vida. Fizemos promessas sobre promessas, celebramos missas e prometemos outras às almas, mais parece à febre atacou o coração. Até terça feira de manha tinha alguma esperança, mas Frei Benedicto disse-nos que seu Deus o queria no céu.

Ele mesmo pediu os santos sacramentos e os recebeu com a piedade e tranquilidade de sempre. O irmão enfermeiro lhe havia dito que nos últimos tempos (desde 1912 para cá) não havia morrido nenhum religioso na Bahia. Frei Benedicto respondeu sorrindo eu (?).

 - serei o primeiro meu irmão. E é bom que eu vá agora. Agora é mais fácil, sou diácono, com mais responsabilidade e tenho medo do sacerdócio.

- Frei Benedicto quisera trocar com você!

- Não meu irmão, não troco com ninguém! “Fiat volutas Deu”

- Vamos rezar Frei Benedicto para você ficar bom.

- Sim, mas se Deus quiser (também está bom?).

 O Superior da casa, Frei Mauro, não mais se afastou da cama de Frei Benedicto.

Quando fui vê lo pouco depois do meio dia e contar lhe quantas promessas eu tinha feito por ele, ouviu e me beijou a mão.

Eu esperava (...)? Contra toda a esperança...

Mas o mal agravava se e às 6 horas da tarde o nosso querido Frei Benedicto foi transferido para o céu.

Embora desde a manha estivesse prevenido para receber este golpe não pude conter-me diante da realidade de perder aqui o melhor de meus religiosos estudantes. Era tão (?), tão humilde, tão amável e ajudava muito na direção da  adoração Mariana?() que ficaram sem sentidos.

Chorei em soluços e só depois de algumas horas me Consolei com o pensamento de termos mais um lá no céu que (Santo?). Frei Benedicto o era.

Lá poderá fazer mais do que aqui em favor da nossa Província Franciscana de Santo Antonio que tanto ele (apoiava/amava?).

Na quarta feira de trevas, levamos o nosso querido Frei Benedicto ao nosso cemitério que é próprio da nossa ordem onde descansa junto com 18 franciscanos que já foram adiante preparar-nos um lugar no céu.

A sepultura é perpetua e tratada para sempre com religioso cuidado. Nós costumamos fazer com os nossos irmãos falecidos a mesma missa da quinta feira santa. Ofereci por ele e depois já foram (...) serão celebradas.

Envio, pois um abraço de condolências aos queridos pais e parentes do nosso saudoso frei Benedicto e peço que se consolem em Jesus e Maria. Rezem por mim.

Fr. Eduardo Herberhold

Ministro Provincial

Frei Benedicto morreu no dia 15 de abril de 1919 as 18:00  horas , provavelmente de febre amarela.

5/4 – recebeu ordem de Diacono

6/4 – leva hóstia a doente

9/4 – sintomas da doença

20/4/1919 – pascoa de 1919

 DOM EDUARDO HERBERHOLD

 

1°BISPO AUXILIAR DE SANTARÉM-(1928-1931) GOVERNO DE DOM AMANDO BAHLMANN

NASCEU EM LIPPSTADT, ALEMANHA, A 28 DE JUNHO DE 19872.
INGRESSOU NA ORDEM DOS FRADES MENORES, A 04 DE MAIO DE 1890.
CHEGOU AO BRASIL(RECIFE-PE),A 10 DE JULHO DE 1894.
ORDENADO EM SALVADOR, BAHIA, A 18 DE AGOSTO DE 1895.
ELEITO MINISTRO PROVINCIAL, A PRIMEIRA VEZ EM 1913, A 2° 1926.
NOMEADO BISPO TITULAR DE HERMÓPOLIS-MAIOR E AUXILIAR DO PRELADO DE SANTARÉM, A 07 DE JANEIRO DE 1928.SAGRADO BISPO EM SALVADOR, 06 DE MAIO DE 1928.
TOMUOU POSSE COMO BISPO AUILIAR, EM SANTARÉM, A10 DE SETEMBRO DE 1928.
TRASFERIDO PARA A DIOCESE DE ILHÉUS, A 30 DE JANEIRO DE 1931.
FALECEU EM SALVADOR, BAHIA , EM 24 DE JUNHO DE 1939.
FOI SEPULTADO EM ILHÉUS, BAHIA, NA CATEDRAL CONTRUÍDA SOB SEU GOVERNO. 

 

obs :. A PROVA DA CRUZ

A febre amarela que assolou os Estados da Bahia e de Pernambuco foi a prova da cruz pela qual passou Província Franciscana de Santo Antônio.
Os documentos históricos dão conta de que foram 14 as vidas ceifadas de jovens frades, entre 20 e 30 e poucos anos, nove na Bahia e cinco em Pernambuco.
http://freimilton-ofm.blogspot.com.br/

 O bispo Dom Eduardo Herberhold nasceu em Lippstadt, na Westfália, Alemanha em 28 de junho de 1876. Filho de Henrique Herberhold e Teresa Utzel Herberhold.

Somente depois de muitas orações e meditações é que tomou a decisão de seguir a carreira eclesiástica.
Em 1890 recebeu o hábito de São Francisco.
Tomou posse como bispo de Ilhéus em 30 de janeiro de 1931.
Dom Eduardo foi um dos que trabalharam para a construção da Catedral, vindo a falecer em 1939. Histórico

A construção da magnífica CATEDRAL DE SÃO SEBASTIÃO foi iniciada em 1931 por Dom Frei Eduardo Herberhols da Diocese de Ilhéus, dando início ao fantástico projeto do arquiteto Salomão da Silveira. A Catedral é o mais esplêndido Templo Católico do sul da Bahia, com estilo Eclético, Religioso. Romântico e Renascentista e a sua inauguração ocorreu em 1967. A sua beleza e suntuosidade é um grande convite para Missa, Batismo, Crisma, Casamento e também para Meditação e Oração com Deus.

Os nossos sonhos, a nossa família, as nossas ambições jamais seriam os mesmos com a ausência da Catedral, pois é nesse espaço que adquirimos forças para enfrentar os obstáculos, os fracassos, como também celebrar as nossas vitórias. Fé é fundamental e também confiança em Deus em todos os dias de nossas vidas. A imensidão e o universo divino da Catedral nos encantam e nos conduz a horizontes sem fim, criando uma atmosfera de paz em cada um de nós e uma nova vida, de futuro e de intelectualidade.

 

Livro Adoremus !

Manual de Orações e Exercicios Piedosos

Principalmente para o uso da Juventude Christã

Ano: 1924

Autor: Frei Eduardo Herberhold

quinta-feira, 2 de abril de 2020

Uma Sã Desobediencia com a Cura das Maças


Neste tempo de covid 19 eu acabei me lembrando de uma historia da infância de meu pai que ele sempre nos contava.
Para os que não me acompanham, eu esclareço que ele nasceu no Norte da Itália, num pequeno lugarejo chamado Palú na comunidade de Caiolo, Província de Sondrio, Lombardia, região atualmente assolada drasticamente pela pandemia do Covid 19.
Eu não sei bem em que data... Acredito que tenha sido em 1937 ou 1938, quando ele tinha por volta de 13 anos de idade que o lugarejo foi acometido por um surto de tifo e muitas pessoas ficaram doentes e várias morreram.
Meu pai assim como alguns amigos também adoeceu de “tifo”. Ficou tão doente que achavam que ele iria morrer. Todos os sintomas vieram muito fortes. Deste período  ele só se lembrava da febre e de seus pais muito preocupados com seu estado:
“febre alta, persistente e difícil de controlar, dor de cabeça muito forte, prostração. Com o agravamento do quadro, eles evoluem para delírio e estupor (inconsciência profunda)."(2)
Enfim depois de vários dias a febre foi embora e ele recobrou a consciência e começou a sentir uma fome e uma sede brutal, mas  seus pais não o deixavam comer ou beber, restringiram drasticamente sua alimentação. Na verdade essa era a crença naquele tempo: Após a febre o convalescente não podia se alimentar pois o tifo é um tipo de infecção intestinal que lesa muito o intestino. Assim, para proteger o doente ele restringiam a alimentação daqueles que apresentavam uma melhora. Hoje sabemos que o excesso dessa restrição alimentar neste período causou a morte de muitas pessoas que podiam ter sobrevivido.
E isso estava acontecendo com aquele menino... Meu pai.
Ele já havia superado a febre, a pior fase da doença mas, agora, a sede e a fome o estavam matando. Era questão de dias, poucos dias.
Seus pais eram colonos. Moravam numa pequena, modesta e típica casa da região, ou seja: A casa tinha um sótão onde colocavam para secar o excedente das colheitas que tinham e durante o surto de tifo o sótão estava cheio de... MAÇAS! Deliciosas maças secando no sótão. O aroma descia pela tosca e íngreme escada e perfumava a pequena casa.
Enlouquecido pela fome e pela sede ele não resistiu e  desobedeceu as recomendações do médico e de seus pais. Esperava a noite chegar e todos irem dormir e no silencio da noite, o fraco menino se arrastava até o sótão onde se fartava de comer maças: uma, duas, três, dez maças e depois de saciado ele retornava feliz para a sua cama, em silencio, não contando sua aventura para ninguém.
Assim começou a dormir durante o dia e a noite voltava ao sótão para se saciar de maças.
Os dias foram passando e ele se recuperando e então sob recomendação médica começaram a lhe dar sopa e agua... Enfim...ele se recuperou.
Só contou a historia das maças para seus pais depois de passado muito tempo. Para nós  suas filhas, ele contava essa historia rindo e não entendia bem o porque ele se “safou” do tifo. 
Já era avô quando ele contou essa historia a um médico. Esse médico lhe disse que na verdade essa sua desobediência de comer as maças que lhe salvou a vida pois elas lhe forneceram agua e possuiam os nutrientes necessário, ideais para  sua recuperação.
Maças como sabemos hoje são ótimas para o intestino... E o salvou.
Uma sã desobediência...
Ele dizia então: Que foi a Cura das Maças


segunda-feira, 27 de março de 2017

Stella Alpina - Edelweiss ((Leontopodium Alpinum)

A pequena e preciosa Stella Alpina tambem é simbolo das montanhas, dos alpinistas e do Tirol 



Aqui no Brasil poucos a conhecem. 

Alguns a conhecem por outro nome: Edelweiss

É a mais cantada e amada flor das montanhas e da neve. 

Tem o formato de uma estrela.

É uma linda flor no formato de uma estrela tendo no centro um amarelo acinzentado  rodeada de pétalas brancas e aveludadas.

Nasce na Itália, Suíça, Áustria e Iugoslávia. Sempre em altitudes acima de 1.700 metros. 

Floresce entre junho e agosto .

Depois de colhida elas podem durar mais de cem anos e por este motivo é o símbolo do Amor Eterno. 

Na Itália é tambem o símbolo das montanhas e dos alpinistas e é um dos símbolos do Tirol.

Existem diversas lendas sobre o aparecimento da pequena flor. Cada pais e localidade têm a sua lenda sempre envolvendo coragem, bravura e amor.


Dizem que somente as pessoas honestas e corajosas conseguem encontra lá pois nascem em locais altos, perigosos e de difícil acesso.

 Conta à lenda que quem acha a flor e a presenteia a pessoa amada, terá o seu amor para sempre.

No passado usava se tambem a Stella Alpina como remédio contra a raiva e o mau olhado.

Homens, mulheres, jovens, crianças, poetas, pintores... Todos procuram uma forma de falar da Stella Alpina.



 
Estas Stellas Alpinas tem mais de 40 anos. 

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Perla e il Campanaccio





No inicio da década de 80 estive pela primeira vez na Itália e fui conhecer a cidade onde meu pai nasceu.
Foi uma emoção indescritível conhecer os lugares que ele descrevia em suas historias.

Ao chegar à Itália, mesmo depois de quase 24 horas viajando sem dormir, foi impossível cochilar enquanto o trem se aproximava da cidade onde ele nasceu. A paisagem a emoção de ver aquela terra era enorme e me deixou em “transe”.

Sentia que mesmo sem nunca ter estado lá eu fazia parte de tudo aquilo. Eu conhecia aquelas montanhas, eu conhecia aquela terra, aquela gente. Eu era parte daquela terra.

O tempo que passei no pequeno “paese” do meu pai foram dias emocionantes e cheios de histórias.


Todo o tempo eu “procurava” pelos “personagens” das historias que ele contara. Conhecer os locais onde as historias aconteceram.

As pessoas estranhavam uma moça tão jovem querendo saber sobre coisas do passado.

 É... Eu sempre fui uma apaixonada por historias!




Meu pai, filho de camponês, após ter participado da segunda guerra mundial foi para a Bélgica trabalhar nas minas de carvão.
Naquela época ele não tinha muitas opções, aquele foi o destino tomado por vários amigos, pois não havia trabalho para todos na Itália e sua família havia perdido toda a “criação” e não tinham como fazer seus salames, queijos etc... Os soldados, de várias nacionalidades, diversas facções, que passaram pela minúscula propriedade haviam levado tudo o que podiam.
A guerra deixou seu rastro de fome e dificuldades para todos. A comida era contrabandeada e cara. Tinha se pouco para comer.




O primeiro salário que ele recebeu trabalhando nas minas de carvão ele enviou para seus pais que logo compraram uma “vaca” para restabelecerem o fornecimento de manteiga e queijo na família.

 Essa vaca havia sido premiada num concurso local, porem uma doença em suas “tetas” a havia deformado e ficou desvalorizada. Assim eles puderam comprar um bom animal por um preço razoável.
Essa vaca se chamava “Perla” (Perola) e foi um marco no reerguimento da família no pós-guerra.

Assim que começa o verão, é costume nas montanhas da “Valtellina” soltarem as vacas que passaram o inverno confinadas nos estábulos.  Um cuidado importante se faz necessário: amarram grandes sinos em seu pescoço a fim de localiza-las com mais facilidade. O som desses sinos é uma característica dessas montanhas, canções e poesias falam dele.

( Sons da Valtellina no verão : https://www.youtube.com/watch?v=kXfDyM5dmlI)



 Foi com muita alegria que num desses dias, meu tio Evelino me chamou e abrindo um antigo baú tirou lá de dentro uma “campana”, (sino) que se coloca nas vacas. Deu-me de presente dizendo que deveria ser meu, pois o mesmo tinha sido usado na “Perla”, a vaca comprada com o dinheiro do trabalho de meu pai.  Disse-me que o sino devia ser muito antigo. Talvez do tempo de seu avô.






O sino estava preso num grosso e largo cinturão de couro com uma grande fivela tambem feita de prata e bronze.

Deu-me o presente, mas queria tirar o “cinturão” ao qual era preso, pois segundo ele o “couro” estava com cheiro de vaca! Implorei  que não fizesse isso, pois para mim o "cheiro"  o deixava mais original!  Ele só riu e me entregou o presente

Não sei se ele conseguiu perceber o tamanho da satisfação que senti ao receber o presente.

Guardo com enorme carinho e é uma recordação de meu pai, de meus tios, de meus nonos.

Na viagem de volta para o Brasil, fiquei com medo de que pudessem perder minhas malas, afinal isto acontecia com certa frequência. Resolvi que levaria ele na mão. Coloquei o em uma sacola junto com outros objetos contrabandeados como queijos, vinhos, funghi e salames.  Tudo o que não era permitido passar na alfandega, no Brasil.

Minha viagem de volta foi: Torino/Milão/ Roma/Rio/ BH

Assim que cheguei ao aeroporto em Torino percebi que estava cheio de policiais armados com metralhadoras. Achamos aquilo estranho afinal não sabíamos de nada mais sério que estivesse acontecendo na cidade.

A essa altura eu nem me lembrava do porque minha sacola de mão estava tão pesada. 10 Quilos! Na sacola de mão!

Despachei a mala, fiz o check-in e fui para o embarque onde novamente seriamos vistoriados. Ao chegar à recepção para o embarque, eu só fiquei preocupada com os vários rolos de filme que trazia na minha bolsa (sim, ainda eram aquelas películas) e me esqueci de que a “sacola de mão” deslizava pela esteira rolante e estava sendo “devassada” pelos Raio-X !

De repente uma sirene altíssima ecoou ao meu lado e imediatamente me vi cercada por uns quatro ou cinco soldados e um deles usou o cano da metralhadora par me afastar da fila!  Fazia perguntas porem eu estava tão apavorada que custei a entender que ele me perguntava sobre o que tinha dentro da sacola que havia disparado o alarme de metal.

Respondi que levava somente alimentos...  
Tornou a me perguntar...

 E eu fui abrindo a sacola para mostrar a ele que só tinha queijos, funghi, salames e... 

Oh! Meus Deus ! O sino !!!!!!

Eu havia esquecido do sino. 

Eles ficaram muito bravos comigo. Acho mesmo que ficaram decepcionados. Queriam fazer uma boa apreensão... Queriam pegar uma brasileira contrabandista... ai meu Deus !
O resto do tempo que fiquei esperando na sala de embarque eles ficaram me observando... Eu morrendo de medo! 
Foi durante essa espera que alguem na sala de embarque comentou comigo que no dia anterior haviam preso um casal de “brasileiros” que haviam tentado passar com armas. UFA!!!!

Enfim embarquei com meus salames, queijos e funghi... Agora a preocupação era só que no Brasil eu não fosse pega na alfandega com minha “matula”.
No Brasil apertei a tal campainha e ufa! Deu verde, passagem livre, não precisei passar na inspeção!

 Sim! Os queijos estavam maravilhosos...
  
Recordei toda essa historia porque hoje ao abrir uma pagina na internet me deparei com uma antiquíssima tradição da região da Valtellina, Valcamonica e Aprica.  Chama se “Suna da mars” (sons de março ou canção de março) que me trouxe muitas lembranças.

A festa é uma antiga tradição mágica, pagã que acontece no ultimo dia do mês de fevereiro quando os camponeses descem das montanhas com seus trajes típicos de inverno, em uma espécie de procissão fazendo um barulho ensurdecedor com suas campainhas, sinos, e corneta.  Todo esse barulho é para “despertar a primavera”, pois já estão cansados do inverno. Acordam a natureza para que recomece a brotar e dar o alimento que no passado, era escasso no final do inverno. Exibem e tocam com orgulho seus sinos e campanas... Foi então que eu me lembrei do meu sino!
Pensei até em ir no próximo ano para lá na época da festa... Quem sabe eu levo o meu sino?



Quando eu começo a pesquisar eu custo a parar e então continuei com minha busca pelas tradições locais de Sondrio. Acabei descobrindo que o que meu pai me contava como uma “brincadeira de crianças” é na verdade uma tradição local e é conhecida como: LE FORA L’ORS DE LA TANA (o urso esta fora da toca)

A região montanhosa da Valtellina foi no passado, infestada por ursos e lobos.  O “paese” onde meu pai nasceu não fugia a regra. Ursos e lobos vagavam com frequência nos arredores das casas e atacavam pessoas e animais.  Os camponeses para se protegerem, contruiam suas casas uma colada a outra.
Até a chegada da luz elétrica naquelas localidades, as casas eram construídas de forma que não fosse necessário sair “a rua” para se locomover de uma casa para outra. Uma porta, uma varanda ou um corredor as ligavam.


Casa no Palú ( Caiolo - Sondrio em 1981)

Casa no Palú ( Caiolo - Sondrio) em 2014


 (Essas casas estão muito bem retratadas num lindo filme chamado “A Árvore dos Tamancos”)


A tradição é na uma brincadeira da época e acontecia nos primeiros dias de fevereiro, época em que os ursos acordavam de sua longa hibernação. Consistia em assustar algum amigo desprevenido ou mais medroso gritando: Corre que o urso saiu da toca!



Se você fizer essa brincadeira hoje em dia, aqui no Brasil, a pessoa com certeza dirá que você é louco... Mas naquela época... As pessoas não iam correr o risco de duvidar.
Era melhor correr e conferir depois.

Lobos e ursos eram reverenciados num passado recente e esse é o motivo de muitos homens naquela região terem o nome de: Adolfo

Adolfo significa lobo nobre, uma alegoria do poder indestrutível.
Ah... É o nome de meu pai!





MADONNA COLONNA - AINDA UM MISTÉRIO

  Para mim foi uma emocionante descoberta sobre uma obra de “Rafael Sânzio” vinda com imigrantes para o Brasil em 1875. E tudo começou em 19...